1 de maio de 2015

Sobre maldições (a de Canaã e a nossa)

Apesar de ser continuamente acusado de ser homofóbico, toda a revolta contra o pastor e deputado federal Marco Feliciano em 2013 começou, segundo penso, com sua infeliz declaração em sua conta do Twitter relacionando os africanos com uma maldição atribuída a Canaã, filho de Cam (ou Cão) e neto de Noé, algo que foi considerado por muitos como racismo.

Mesmo que o dito pastor não tivesse nenhuma intenção racista ao declará-la, esta é uma linha de pensamento infeliz que existe já há algum tempo, e que inclusive já foi historicamente utilizada por racistas. Contudo, reafirmo que apesar de ter várias razões para me opor ao Marco Feliciano enquanto pastor e deputado, não acho que ele seja racista.

Nós, protestantes, defendemos o livre acesso e estudo das Escrituras Sagradas, mas não que ela seja interpretada de qualquer forma, apesar de reconhecermos que isso infelizmente acontece. Existe o sentido correto dos textos bíblicos, e nos esforçamos (e muito!) para buscá-lo. Neste sentido, e visando combater especificamente esta interpretação errada da maldição de Canaã, compartilho uma breve análise textual do Rev. Odayr Olivetti, falecido pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, e que já foi professor de Teologia Sistemática no Seminário Presbiteriano de Campinas/SP. Em sua análise simples e coerente, baseada em textos bíblicos, ele aponta os erros de interpretação daqueles que associam a maldição com o continente africano.

Em seu texto, ele diz:

Os camitas e a raça negra:

1°. A maldição de Noé (Gn 9.22-27) foi sobre seu neto Canaã, não diretamente sobre seu filho Cam. Note-se que este já fora abençoado (Gn 9.1).


2°. Os descendentes de Canaã são os cananeus, os amorreus, os filisteus, os assírios e os babilônios, que estão entre os descendentes relacionados em Gênesis 10.15-18. Os cananeus habitaram na Palestina, desde Sidom, ao norte, até Gerar e Gaza, ao sul (Gn 10.19). Os cananeus não constituem a raça negra.


3°. Na África, os descendentes de Cão são Pute e Mizraim. Mizraim é o nome hebraico do Egito. Conclusão desta parte: Biblicamente, a raça negra não é resultante da maldição de Noé, pois esta foi sobre Canaã.


Ao concluir sua breve análise, o Rev. Odayr Olivetti afirma que:

A exegese errada do texto que fala da maldição de Canaã, erroneamente atribuída a Cam, deu argumento para os racistas, e até para o arianismo fanático racista de Hitler.

A ótima ESV Study Bible também comenta sobre o trecho de Gênesis 9, o capítulo onde estão registrados os fatos que levaram o patriarca Noé a esta atitude de proclamar esta maldição no Mundo Antigo. As notas de estudo desta Bíblia mostram não apenas o erro de associá-la aos povos africanos, mas também como esta proclamação de Noé é em certo sentido profética, adiantando eventos futuros em relação a um dos seus descendentes, quando Deus em Sua Santa Ira julgaria os povos cananitas:

A reação de Noé à ação de Cam é amaldiçoar Canaã, o filho de Cam. […] Esta passagem foi erroneamente utilizada em séculos passados para justificar a escravidão dos povos africanos, resultando em grave abuso, injustiça e desumanidade sofridos por pessoas criadas à imagem de Deus. A maldição de Noé a Canaã, que foca no fato dele se tornar servo dos outros irmãos, antecipa o julgamento que mais tarde cairia sobre os Cananitas (conferir Dt. 7:1-3 com Gn. 10:15-19). Isto, associado ao fato que a maldição cai apenas em Canaã e não nos outros filhos de Cam (que se estabeleceram no norte da África), mostra o quão ilegítimo é o uso deste texto para justificar a escravidão dos povos africanos.

As explicações que compartilhei podem trazer mais luz sobre o assunto, mas não eliminam o fato de que muitos não gostam e não aceitam a própria existência em si de textos bíblicos descrevendo Deus punindo, castigando e amaldiçoando, e muito menos de existirem pessoas que atestem pela fé a veracidade destes textos, ao afirmarem que eles dizem a verdade sobre a Pessoa Divina.

Sim, acreditamos que os textos bíblicos expressam a verdade sobre Deus; não de forma exaustiva, mas mesmo assim, o que está ali registrado é a verdade. E a verdade é que Deus se relaciona com pessoas por meio de alianças e bênçãos, mas também por meio de disciplinas, castigos, avisos, e mesmo punições e maldições. Deus é infinitamente Bom sem deixar de ser infinitamente Justo, e diferentemente de nós seres humanos, a Sua Ira é instrumento de Sua Justiça.

E longe de ser "coisa de Antigo Testamento", as Escrituras como um todo também expressam a verdade atual, nua e crua sobre nós, ainda hoje, de que na realidade todos estamos sob a maldição do pecado, de forma que somos naturalmente desobedientes e espiritualmente mortos (Sl. 51:5; Rm. 5:12-21; Ef. 2:1-3). Portanto, a questão principal não seria a maldição de Canaã mas sim a de toda a humanidade.

Pois, conforme registrado:

Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. (Romanos 3:23 NVI)

Todos. Sejam eles africanos, asiáticos, europeus ou americanos; do hemisfério norte ou do sul, do Oriente ou do Ocidente, e ao longo de toda a História, todos são pecadores, e precisam do Senhor.

A solução para sairmos desta situação de maldição foi dada pelo próprio Deus, quando Ele enviou o Seu Filho para se tornar maldição em nosso lugar, e para sofrer, em nosso lugar, a punição justa do Pai (2 Co. 5:21; Gl. 3:13), e o Filho, por livre vontade e por amor a nós, obedeceu (Jo. 10:18). Assim sendo, olhemos e busquemos todos, igualmente, Aquele que pode nos redimir e salvar: o Senhor Jesus Cristo.

0 comentários: