30 de dezembro de 2015

Dois tipos de trabalho

Você trabalha duro. Não porque você precisa fazê-lo, mas porque você se sente abençoado em ter adquirido e desenvolvido algum tipo de talento, e todas as vezes que você o usa para produzir algo você se sente como se estivesse seguindo o seu chamado, a sua vocação, e contribuindo com os outros e com o mundo ao tentar colocar um pouco de ordem em algum estado caótico. Seu trabalho lhe traz alegria.

Por outro lado, você trabalha duro. Porque você sente que precisa fazer isso para poder continuar onde está, ou para alcançar algo que você deseja. Você é julgado por metas, e você precisa provar seu desempenho. Você precisa mostrar suas habilidades e competências para poder ser aceito. No final você sente que precisa provar algo para si mesmo, quando na verdade o que você está de fato fazendo é tentando provar algo para os outros, e como não é suficiente (nunca é), você continua tentando mais e mais. Seu trabalho é penoso, doloroso, e lhe traz ansiedade.

Em ambos os casos você precisa descansar, mas enquanto que no primeiro caso seu trabalho já produz um tipo de descanso, no segundo você antes de tudo precisa descansar daquele trabalho mais profundo que o seu trabalho está na verdade escondendo, ou seja, a autojustificação.

O primeiro tipo de trabalho representa o Evangelho, onde você é aceito e portanto habilitado a trabalhar, a realizar, a fazer. O segundo tipo de trabalho representa Religião, onde você precisa fazer para poder ser aceito.

Um tipo de trabalho te torna uma pessoa plenamente satisfeita. O outro te torna um escravo.

2 de agosto de 2015

O caminho bem definido

Se Jesus Cristo não fosse o único caminho para a salvação, então Deus seria um canalha. Isto porque Ele teria mandando Seu Filho para morrer por nós, à toa.

Esta é uma declaração muito, muito forte, e lembro-me até hoje como não foi fácil para mim ouvi-la pela primeira vez, anos atrás.

Mas ainda que seja uma frase difícil, ela é correta e necessária.

E por que necessária? Porque, infelizmente, muitas pessoas passam anos e anos dentro de uma instituição cristã, seja por medo, culpa, tradição familiar, ou qualquer outro motivo, sem realmente entender as profundas implicações daquilo que Cristo Jesus afirmou sobre Si mesmo, conforme registrado na Bíblia Sagrada. E por não entenderem direito, não somente acabam aceitando quaisquer outros tipos de “caminhos” e de “salvações” que existem por aí como também criticam e veem com maus olhos aqueles que não seguem seu exemplo.

Talvez ao ouvir ou ler uma frase de impacto como esta, estas pessoas possam compreender seu erro, e quem sabe se tornarem um pouco mais coerentes consigo mesmas.

Ninguém é obrigado a aceitar aquilo que a Bíblia Sagrada afirma, eu não tenho problemas em entender isso. Mesmo os pais crentes, que seguem a ordem do Senhor de evangelizar seus filhos ao longo dos anos, sabem que, no final das contas, um dia estes deverão decidir por si mesmos. (Até porque evangelizar é ensinar e informar, e não obrigar.)

O que é difícil de entender (e confesso que particularmente para mim isto é muito difícil) é o fato de uma pessoa que se diz cristã deliberadamente desenvolver um orgulho tão grande ao ponto de ficar cega ao real significado do seguinte verso:

Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. (João 14:6)

Quem sabe com letras capitalizadas, grifadas e em negrito, o entendimento fica mais fácil:

Respondeu-lhe JESUS: Eu sou O CAMINHO, e A VERDADE, e A VIDA; ninguém vem ao Pai SENÃO POR MIM. (João 14:6)

Prezado(a) leitor(a): ao ler este verso, não deixe de considerar o artigo definido presente em “o caminho”; ele não está lá à toa. Ele acentua uma afirmação exclusivista que não soa bem aos ouvidos pós-modernos, mas está lá exatamente para este propósito. Sugiro que você reflita sobre ele, e decida-se, por simples questão de coerência.

#FicaADica

30 de junho de 2015

Sobre nerds e geeks

Muitos consideram os termos "nerd" e "geek" como sendo sinônimos. Por outro lado, qualquer pesquisa rápida no Google mostra que muitos outros discordam e apontam diferenças entre eles, e no final parece não existir consenso algum sobre a questão.

Isso levou-me a pesquisar sobre o assunto: o que é um nerd, e em que ele difere do geek, se é que existe diferença?

Uso o termo "nerd" no texto Sobre mim e este blog porque realmente me considero assim, e também porque na realidade sou de um tempo em que falava-se apenas em nerds e não em geeks. A palavra "geek", embora originária do século XIX referindo-se à uma apresentação circense bizarra, tem uso mais recente que "nerd", utilizada originalmente no MIT e cuja primeira aparição documentada se encontra no livro If I Ran the Zoo, escrito na década de 1950 pelo famoso autor infantil norte-americano Dr. Seuss.

Ao pesquisar mais sobre o significado exato de ambos os termos, percebi que eles possuem certas dificuldades de definição, algo que incomoda alguém como eu que gosta das coisas claras e bem definidas [1]. O Oxford Advanced Learner's Dictionary considera que elas são palavras sinônimas, ambas se referindo a pessoas consideradas como chatas, que vestem roupas fora de moda, que tem problemas de aptidão social e são muito interessadas em computadores, mostrando assim a razão pela qual as duas palavras são na prática tidas como similares. Entretanto, alguns artigos ou fóruns de Internet apontam para o fato de que o geek não teria problemas de aptidão social, sendo que este seria justamente o aspecto que o difere de um nerd; além disso, o nerd teria mais relação com uma disposição intelectual ou interesse acadêmico, enquanto que o geek ao fato de alguém ter grande interesse por algum assunto, não necessariamente técnico ou acadêmico (quadrinhos ou filmes por exemplo), e por ser mais interessado em tecnologia. Com o passar dos anos, o termo "geek" teria ganhado uma conotação mais positiva que o termo "nerd".

Michael Lopp, em seu ótimo livro Being Geek, trata desta dificuldade de definição precisa dos termos, quando afirma:

Eu sou um geek, e eu posso ser um nerd, mas não sou um dork. Eu estive em contato com estas definições por tempo suficiente para vê-las transformadas de palavras pejorativas a distintivos de honra e designações de louvor, mas mesmo tendo relações públicas e posição social dramaticamente melhores, nós ainda somos um ponto baixo com habilidades sociais debilitantes, estranhos problemas de controle, e um apetite insaciável por informação... e nós ainda nem temos uma boa definição para os títulos que damos a nós mesmos. [...] As origens das palavras não ajudam muito. "Geek"originalmente descrevia um artista de circo que arrancava com a boca a cabeça de animais vivos. "Nerd" tem uma origem mais honrosa, pois seu primeiro uso documentado se encontra no livro do Dr. Seuss da década de 1950 [...] Desde então, as palavras se misturaram. Existem bons diagramas de Venn que descrevem os respectivos traços dos nerds versus geeks. Alguns sugerem que os geeks são mais obsessivos que os nerds. Outros apontam para a inaptidão social dos nerds, mas para cada definição que você encontra, outra pode ser encontrada contradizendo a anterior. No final, as duas palavras são válidas.

Douglas Adams, autor de O Guia do Mochileiro das Galáxias, chegou a afirmar anos atrás que:

O nerd é uma pessoa que usa o telefone para falar com outras pessoas sobre telefones, e o nerd de computador portanto é alguém que usa um computador a fim de usar um computador.

Descrições de perfis que já li e até mesmo alguns questionários online sugerem que sou realmente um nerd com características de geek, e assim sendo acho particularmente muito útil os resultados do conjunto de tags do LibraryThing para as palavras-chave "nerd" e "geek", pois mostram como ambos os conceitos acabam tendo pontos em comum ao mesmo tempo que também algumas diferenças interessantes: os geeks parecem ter mais interesse por pelo gênero literário cyberpunk, algo que não tenho, e os nerds pelo estudo de idiomas, algo que também aprecio; o interesse por linguagens de programação, por outro lado, parece ser uma característica mais geek do que nerd.

No final, a análise que mais gostei até agora sobre o assunto vem de um texto muito interessante intitulado O que é um nerd? do blog Ira Racional. Neste texto, que pode ser acessado através deste link, o colunista Altieres Rohr conclui que:

Nerds são geeks. Geeks são nerds. Um geek/nerd é um indivíduo interessado em desenvolver habilidades e é apaixonado por alguns assuntos específicos. Estes podem ser a literatura (mais comumente ficção científica), cinema, música, cultura oriental (otaku), quadrinhos, RPG, videogame e outros. São geralmente adeptos com computadores, mas não precisam ser técnicos ou engenheiros elétricos, embora dificilmente não tenham pelo menos um vago interesse pelo tema, além do fato de que “nerd” teve origem no MIT. A característica que liga todos esses indivíduos é um código de cultura comum e indiferença a normais sociais, o que geralmente faz o geek/nerd parecer idiota. [...] Em outras palavras, para os apressados e fãs de síntese: geek e nerd são a mesma coisa: um ser indiferente à aprovação alheia, fascinado pelo conhecimento e pela produção humana, seja nas máquinas ou na cultura. Atualmente, nerd é apenas usado por aqueles que têm orgulho de serem assim e negam a malícia deste comportamento, enquanto geeks preferem este termo por ser menos polêmico. Assim sendo, fico com a definição de nerd.

Concordo com esta conclusão e identifico-me com ela, de forma que também fico a definição de nerd.

(Mas também me acho um geek.)

[1] Aliás, Michael Lopp disse ser esta uma característica nerd.

25 de maio de 2015

Sim, é pecado. E agora?

Como eu expliquei no texto anterior, sim, homossexualismo é pecado. É o que a Bíblia Sagrada diz ser, e para mim isso é uma questão de Sola Scritpura.

Mas e agora? Como os crentes deveriam tratar desta questão? O que eu devo fazer a respeito disso? Como manter-se biblicamente firme, ainda que com amor, quando alguém próximo, que você admira ou se importa, afirma ser gay?

Muitas pessoas cometem erros quanto a isso porque é tão mais fácil esquecer dos próprios pecados e concentrar nos pecados dos outros com uma "fúria justa". Assim sendo, segundo penso, a primeira coisa a fazer seria sinceramente reconhecer a própria condição de pecador. Todas as pessoas, cometendo diferentes tipos de pecados, precisam se arrepender e confiar em Jesus Cristo como Salvador. Quanto a isso, não somos em nada diferentes; precisamos todos da mesma ajuda. Ninguém é melhor do que ninguém.

Mesmo que tentando guiar-me por esta verdade, eu me considero um "trabalho em andamento": eu ainda tenho muito a aprender sobre como publicamente lidar com esta grande mudança cultural que estamos vivendo, e até mesmo sobre como falar com as pessoas quando questionado sobre o fato do homossexualismo ser pecado, ou sobre o significado do casamento.

Deus tem me ajudado nestas coisas, e com certeza Rosaria Butterfield é uma prova disso.

Conheci Rosaria através de seu livro The Secret Thoughts of an Unlikely Convert, que deveria ser leitura obrigatória para todos os crentes não apenas por seu testemunho de como ela se arrependeu de seu pecados (homossexualismo sendo um deles) e converteu-se a Cristo, mas por muitos outros motivos que tornam este um livro fantástico para o amadurecimento espiritual de qualquer um. Desde então tenho acompanhado o seu trabalho, sempre ficando admirado com a clareza de seu pensamento e seu olhar crítico.

Em uma entrevista recente Rosaria tocou com sensibilidade na questão de qual deveria ser o posicionamento dos cristãos frente ao homossexualismo. Sua resposta, que tem a minha total concordância, pode ser vista no vídeo à seguir:


9 de maio de 2015

Sim, homossexualismo é pecado

O chamado "casamento gay" está se tornando oficialmente reconhecido em muitos países, recebendo o mesmo status legal do agora chamado "casamento tradicional". A cultura LGBT é promovida e celebrada, a atração por pessoas do mesmo sexo é defendida e incentivada,  novas configurações de família se formaram, e a Suécia está até mesmo usando um novo pronome de gênero neutro porque, para os suecos, apenas "igualdade de gêneros" não é mais suficiente.

Qualquer oposição a estas coisas é quase que certamente classificada como homofobia. Alguém pode até dizer tolerar este novo status quo, mas para muitas pessoas isso não é o bastante: é preciso aceitá-lo completamente, ou então encarar as consequências.

A cultura obviamente mudou. E a igreja de Cristo?

Uma grande parte da igreja é vítima de perseguições pesadas, com punições que variam de prisão até a morte, por causa da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Considerando que esta parte da igreja não tem voz nem para se defender, quanto mais conseguiria ela ser uma voz ativa onde está inserida.

A outra parte vive em uma sociedade pós-moderna, autocentrada, viciada em entretenimento, e segundo vejo, sofre de uma espécie de crise de identidade: ela se esqueceu do significado e da gravidade do pecado e, como muitas vezes parece, até mesmo de quem é o Cabeça da Igreja.

Isso pode ser verificado por exemplo na forma como a igreja está lidando com a questão da homossexualidade: ela se encontra dividida sobre isso. A análise dos motivos desta divisão são complexos e estão fora do escopo deste texto, mas na minha humilde opinião, eu diria que uma das razões seria simplesmente o medo de receber a desaprovação do mundo e de perder os privilégios conquistados ao longo dos séculos.

De qualquer forma, mesmo que hoje em dia muitos dentro da igreja aceitem a prática homossexual e o "casamento gay", eu não aceito, e é exatamente disto que este texto se trata: de usar da minha liberdade de pensamento e expressão religiosa para publicamente me posicionar ao lado daqueles irmãos e irmãs em Cristo que também rejeitam a prática homossexual como um comportamento sexual aceitável, e o "casamento gay"como sendo casamento.

Como cristão protestante, calvinista/reformado, eu mantenho o princípio bíblico e histórico da Sola Scriptura, o que significa dizer que eu reconheço e aceito a Bíblia como sendo a Sagrada Palavra de Deus, sendo assim suficiente e autoridade final de doutrina e prática. Eu reconheço e aceito que a Bíblia Sagrada revela quem Deus É, quem eu sou, e porque todas as coisas foram criadas. Eu reconheço e aceito totalmente aquilo que a Bíblia diz sobre mim: que eu sou um pecador que precisa urgentemente de um redentor, que é ninguém mais que o próprio Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Considerando tudo isso, eu também reconheço e aceito aquilo que a Bíblia ensina sobre a sexualidade humana e o casamento, ou seja, de que gênero não é uma construção social mas sim parte do projeto de Deus para os seres humanos, que o casamento é uma instituição criada por Deus constituída para a união do homem e da mulher, e que qualquer tipo de atividade sexual fora do casamento é pecado, incluindo o homossexualismo.

Conforme estabelecido no Antigo Testamento:

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gênesis 1:27 NVI)

Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. (Gênesis 2:24 NVI)

Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante. (Levítico 18:22 NVI)

Conforme estabelecido no Novo Testamento:

Mas no princípio da criação Deus ‘os fez homem e mulher’. ‘Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’. Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. (Marcos 10:6-8 NVI)

Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. (Romanos 1:26, 27 NVI)

Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. (1 Coríntios 6:9, 10 NVI)

Portanto, sim, homossexualismo é pecado. Não o pior deles, mas pecado mesmo assim. Não imperdoável, mas um pecado que necessita de arrependimento, em Cristo Jesus, assim como qualquer outro.

1 de maio de 2015

Sobre maldições (a de Canaã e a nossa)

Apesar de ser continuamente acusado de ser homofóbico, toda a revolta contra o pastor e deputado federal Marco Feliciano em 2013 começou, segundo penso, com sua infeliz declaração em sua conta do Twitter relacionando os africanos com uma maldição atribuída a Canaã, filho de Cam (ou Cão) e neto de Noé, algo que foi considerado por muitos como racismo.

Mesmo que o dito pastor não tivesse nenhuma intenção racista ao declará-la, esta é uma linha de pensamento infeliz que existe já há algum tempo, e que inclusive já foi historicamente utilizada por racistas. Contudo, reafirmo que apesar de ter várias razões para me opor ao Marco Feliciano enquanto pastor e deputado, não acho que ele seja racista.

Nós, protestantes, defendemos o livre acesso e estudo das Escrituras Sagradas, mas não que ela seja interpretada de qualquer forma, apesar de reconhecermos que isso infelizmente acontece. Existe o sentido correto dos textos bíblicos, e nos esforçamos (e muito!) para buscá-lo. Neste sentido, e visando combater especificamente esta interpretação errada da maldição de Canaã, compartilho uma breve análise textual do Rev. Odayr Olivetti, falecido pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, e que já foi professor de Teologia Sistemática no Seminário Presbiteriano de Campinas/SP. Em sua análise simples e coerente, baseada em textos bíblicos, ele aponta os erros de interpretação daqueles que associam a maldição com o continente africano.

Em seu texto, ele diz:

Os camitas e a raça negra:

1°. A maldição de Noé (Gn 9.22-27) foi sobre seu neto Canaã, não diretamente sobre seu filho Cam. Note-se que este já fora abençoado (Gn 9.1).


2°. Os descendentes de Canaã são os cananeus, os amorreus, os filisteus, os assírios e os babilônios, que estão entre os descendentes relacionados em Gênesis 10.15-18. Os cananeus habitaram na Palestina, desde Sidom, ao norte, até Gerar e Gaza, ao sul (Gn 10.19). Os cananeus não constituem a raça negra.


3°. Na África, os descendentes de Cão são Pute e Mizraim. Mizraim é o nome hebraico do Egito. Conclusão desta parte: Biblicamente, a raça negra não é resultante da maldição de Noé, pois esta foi sobre Canaã.


Ao concluir sua breve análise, o Rev. Odayr Olivetti afirma que:

A exegese errada do texto que fala da maldição de Canaã, erroneamente atribuída a Cam, deu argumento para os racistas, e até para o arianismo fanático racista de Hitler.

A ótima ESV Study Bible também comenta sobre o trecho de Gênesis 9, o capítulo onde estão registrados os fatos que levaram o patriarca Noé a esta atitude de proclamar esta maldição no Mundo Antigo. As notas de estudo desta Bíblia mostram não apenas o erro de associá-la aos povos africanos, mas também como esta proclamação de Noé é em certo sentido profética, adiantando eventos futuros em relação a um dos seus descendentes, quando Deus em Sua Santa Ira julgaria os povos cananitas:

A reação de Noé à ação de Cam é amaldiçoar Canaã, o filho de Cam. […] Esta passagem foi erroneamente utilizada em séculos passados para justificar a escravidão dos povos africanos, resultando em grave abuso, injustiça e desumanidade sofridos por pessoas criadas à imagem de Deus. A maldição de Noé a Canaã, que foca no fato dele se tornar servo dos outros irmãos, antecipa o julgamento que mais tarde cairia sobre os Cananitas (conferir Dt. 7:1-3 com Gn. 10:15-19). Isto, associado ao fato que a maldição cai apenas em Canaã e não nos outros filhos de Cam (que se estabeleceram no norte da África), mostra o quão ilegítimo é o uso deste texto para justificar a escravidão dos povos africanos.

As explicações que compartilhei podem trazer mais luz sobre o assunto, mas não eliminam o fato de que muitos não gostam e não aceitam a própria existência em si de textos bíblicos descrevendo Deus punindo, castigando e amaldiçoando, e muito menos de existirem pessoas que atestem pela fé a veracidade destes textos, ao afirmarem que eles dizem a verdade sobre a Pessoa Divina.

Sim, acreditamos que os textos bíblicos expressam a verdade sobre Deus; não de forma exaustiva, mas mesmo assim, o que está ali registrado é a verdade. E a verdade é que Deus se relaciona com pessoas por meio de alianças e bênçãos, mas também por meio de disciplinas, castigos, avisos, e mesmo punições e maldições. Deus é infinitamente Bom sem deixar de ser infinitamente Justo, e diferentemente de nós seres humanos, a Sua Ira é instrumento de Sua Justiça.

E longe de ser "coisa de Antigo Testamento", as Escrituras como um todo também expressam a verdade atual, nua e crua sobre nós, ainda hoje, de que na realidade todos estamos sob a maldição do pecado, de forma que somos naturalmente desobedientes e espiritualmente mortos (Sl. 51:5; Rm. 5:12-21; Ef. 2:1-3). Portanto, a questão principal não seria a maldição de Canaã mas sim a de toda a humanidade.

Pois, conforme registrado:

Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. (Romanos 3:23 NVI)

Todos. Sejam eles africanos, asiáticos, europeus ou americanos; do hemisfério norte ou do sul, do Oriente ou do Ocidente, e ao longo de toda a História, todos são pecadores, e precisam do Senhor.

A solução para sairmos desta situação de maldição foi dada pelo próprio Deus, quando Ele enviou o Seu Filho para se tornar maldição em nosso lugar, e para sofrer, em nosso lugar, a punição justa do Pai (2 Co. 5:21; Gl. 3:13), e o Filho, por livre vontade e por amor a nós, obedeceu (Jo. 10:18). Assim sendo, olhemos e busquemos todos, igualmente, Aquele que pode nos redimir e salvar: o Senhor Jesus Cristo.

22 de fevereiro de 2015

3 opções, 4 perguntas

"Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?", perguntou certa vez Jesus aos seus discípulos, conforme registrado em Mateus 16:15. Esta é uma pergunta tão relevante agora quanto era no passado. Se naquela época as pessoas davam as mais variadas respostas a ela, ainda hoje continuamos fazendo isso, e a forma como respondemos diz muito sobre a nossa visão de mundo.

No fundo, no fundo, muitas pessoas, incluindo cristãos nominais, consideram que Ele foi apenas um tipo de "grande professor/mestre que ensinou sobre amor", e nada mais do que isso, mas para mim isso nada mais é do que fazer rodeios, evitar chegar ao fundo da questão. Se pararmos para pensar, o assunto em questão é muito mais sério e profundo do que isso.

Cristãos autênticos, que professam o cristianismo bíblico histórico, testificaram ao longo dos séculos, e continuam testificando até hoje, que Ele é o Filho de Deus Encarnado e que, conforme registrado na Bíblia Sagrada, o próprio Jesus identificou-se como sendo Deus.

Isso é simplesmente uma afirmação muito grande e séria para qualquer um fazer, e diante de tamanha alegação, penso que só nos restam 3 opções sobre quem Jesus realmente foi:

Ele era um grande mentiroso.

Ele era um doido varrido, um maluco.

Ele realmente estava dizendo a verdade. Ele realmente era o Filho de Deus.

Aceitar a última opção como a correta deveria nos levar a fazer os seguintes questionamentos:

Por que Ele entrou na História, nascendo como um ser humano?

Por que Ele teve que morrer?

Por que Ele ressuscitou no terceiro dia da Sua morte?

E por último, mas não menos importante, deveríamos finalmente perguntar:

O que isso tudo tem a ver conosco?

Insisto que temos que parar para pensar sobre isso. Garanto que é aquele tipo de reflexão vital, que pode mudar a vida de qualquer um ;)

17 de fevereiro de 2015

Fundação, de Isaac Asimov

[ texto com alguns spoilers ]

Ontem terminei Fundação e Terra, o último livro (em order cronológica) da fantástica série da Fundação de Isaac Asimov, uma das melhores séries sci-fi de todos os tempos.

Ela merece o status que tem. Asimov era um gênio, e todos os livros desta série compreendem uma ótima saga do subgênero da space opera. Eu realmente gostei muito de lê-los.

Algo entretanto me ocorreu ao fazê-lo, e não acho que fui o único que teve esta percepção. Na verdade, recentemente encontrei um tweet de alguém indicando exatamente isso, ou seja, de que na verdade eles são livros sobre religião.

Mesmo que a Fundação tenha me lembrado muito a Igreja Cristã e seu papel na chamada Idade das Trevas, eu não acho que os livros lidam com religião cristã. Seria apenas que notei como Isaac Asimov, mesmo sendo um ateu, não conseguiu evitar de imaginar a humanidade transcendendo, de pensar que existe mais, que podemos nos tornar mais, que o destino da humanidade está além do aqui e agora, sendo que até mesmo ele parece ter imaginado uma figura de Cristo, chave para o desenvolvimento da humanidade. Neste sentido, ela seria uma série sci-fi também de cunho religioso.

Naturalmente que, por ser ateu, Deus não era uma peça central na visão do autor, e por conta disso ele tentou elaborar sua própria solução, sua própria resposta. E confesso que fiquei um pouco triste por ele, quando a vi:

Quer dizer então que estaríamos destinados a perder a nossa individualidade em um tipo de superorganismo galáctico, como peças em uma engrenagem cósmica, para podermos nos defender com mais eficácia de ameaças externas, vindas de outras galáxias? É isso? Apenas outro passo evolucionário rumo à uma superconsciência ou algo do tipo? Seria esta a melhor resposta que as pessoas que acreditam (sim, elas certamente acreditam!) na não-existência de Deus podem oferecer?

De minha parte, eu não concordo, e acredito em outra coisa.

De qualquer forma, a série Fundação é ótima, então não deixem de lê-la.

16 de fevereiro de 2015

Sobre festas diabólicas

Agora mesmo, neste exato momento em que escrevo este texto, está acontecendo uma grande festa de Carnaval na rua ao lado do prédio onde eu moro, no centro de São Paulo. E de todas as coisas que me veem à cabeça sobre isso (garanto a vocês que ódio não é uma delas), eu não consigo deixar de me lembrar daquela vez quando eu compartilhei com alguns colegas de trabalho o que eu sempre achei do Carnaval brasileiro: que é uma festa diabólica.

Eu e a minha boca grande. Claro que recebi reações instantâneas com a minha afirmação, como se eu fosse apenas outro crente ignorante que não sabe nada sobre cultura e história. "Não é uma festa diabólica, mas uma festa pagã, e isso é bem diferente", disse um dos meus colegas mais inteligentes, alguém quem sempre admirei ao longo dos anos.

Eu não o condeno. Naquela época eu compreendi a sua reação, e ainda hoje eu a compreendo. Além do mais, eu deveria ter explicado melhor a minha posição. Falando em termos sociológicos, como crente eu sou influenciado e faço parte de apenas mais um do muitos grupos religiosos falíveis que existem em nosso mundo. Eu sei disso, e também reconheço quão falível este grupo é. E sim, eu concordo com este meu estimado colega: realmente é uma festa pagã. Entretanto, eu ainda mantenho a minha opinião, que aliás é compartilhada por milhares de crentes ao redor do mundo: ela também é uma festa diabólica.

O que acontece é que a forma como você define a Bíblia define a sua visão de mundo. Para mim e muitos outros, ela é a Palavra de Deus, e quando você olha para a Palavra de Deus você entende como o Carnaval vai contra a Vontade e o Caráter do Senhor (Gálatas 5:13, 17, 19-22, 24); ela não promove a Sua Glória mas sim prostituição, abuso de álcool, adultério, a "coisificação das pessoas". Muitos gostam desta festa pelo divertimento que ela oferece, e divertir-se não é um pecado em si, mas ela é uma festa fundamentada em uma falsa alegria e abastecida por coisas erradas.

E por estes motivos, eu a considero uma festa diabólica.

E não necessariamente porque seja uma festa pagã.

Digo isso porque podemos sim encontrar coisas boas, de valor, sábias e verdadeiras em contextos pagãos. "Toda verdade é verdade de Deus", mesmo que ela venha de contextos não-cristãos, e certamente elas vem. Por outro lado, não é verdade que a História do Cristianismo demonstra que, infelizmente, algumas vezes aconteceram (e ainda acontecem) coisas na Santa Igreja que não foram inspiradas por Deus mas pelo Diabo?

(Lembram-se por exemplo quando Jesus disse a Pedro que ele estava falando por Satanás? Se não, por favor leiam Mateus 16:21-23.)

Eu realmente acho que quando alguém admite a visão bíblica histórica, este alguém acaba sendo considerado politicamente incorreto, alguém que vai contra a maré, retrógrado ou qualquer outra coisa do tipo. Se consideramos o próprio núcleo central da nossa fé, de que as pessoas devem reconhecer seus pecados, arrepender-se deles e aceitar Cristo Jesus como seu Redentor, ou então elas sofrerão a Justa Ira de Deus e irão para o Inferno, apenas isso é suficiente para ofender muitos em nosso contexto moderno. Isto é inevitável.

(Lembram-se quando Paulo quase foi para a prisão em Éfeso porque sua pregação era uma ameaça ao culto da deusa Diana? Se não, por favor leiam Atos 19.)

Em todo caso, eu não pretendia ou pretendo ofender ninguém, como se eu fosse um "ser humano moralmente superior cheio de luz e sabedoria". Em primeiro lugar, eu quero apenas informar, mostrar que há outra maneira, outro caminho, de forma que as pessoas possam pensar em Deus e repensar suas vidas. Em segundo lugar, eu quero reconhecer que infelizmente eu tenho as minhas próprias "festas diabólicas" dentro do meu coração. Eu não sou melhor do que ninguém. Como o apóstolo Paulo diz com propriedade em Romanos 7:15, "porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto", e sim, isso realmente acontece comigo e com meus irmãos e irmãs cristãos. Todos nós então precisamos da Graça de Deus para crescer e amadurecer em Cristo, e ficarmos livres disso.

E um dia, eu sei que nós ficaremos completamente livres destas coisas. Para sempre.