22 de novembro de 2014

A última carta de C. S. Lewis

No dia 22 de Novembro de 1963 o mundo perdia o escritor, professor de literatura inglesa e apologista cristão C. S. Lewis, um dos maiores pensadores do último século, aclamado pela sua intelectualidade, espiritualidade e criatividade, inspirando gerações de cristãos com seus textos e estórias.

Muitos de seus livros já foram traduzidos no Brasil, e espero que ele seja cada vez mais lido em nosso país. Na minha humilde opinião (sim, de fã), Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, As Crônicas de Nárnia: A Última Batalha e Além do Planeta Silencioso são livros fantásticos, trabalhos de ficção fundamentais que todos, cristãos ou não, simplesmente deveriam ler.

"Jack", como era conhecido pelos mais íntimos, foi um prolífico autor de correspondências, trocadas ao longo dos anos com amigos e admiradores do seu trabalho, e segundo consta em The Collected Letters of C. S. Lewis, volume 3, um dia antes de seu falecimento ele escreveu a sua (provável) última carta, que republico à seguir:

Para Philip Thompson

The Kilns, Kiln Lane Headington Quarry, Oxford.


21 de Novembro de 1963


Caro Philip Thompson,


Para começar, deixe-me parabenizá-lo por escrever uma carta notavelmente tão boa; eu certamente não poderia tê-la escrito na sua idade. E continuando, obrigado por me dizer que gosta dos meus livros, algo que um autor sempre fica satisfeito em ouvir. É engraçado que todas as crianças que me escreveram enxergam imediatamente quem Aslan é, e os adultos nunca o fazem!


E não li a reimpressão da Puffin que você se refere [1], por isso com certeza eu não vi o erro; mas eu vou chamar a atenção do editor quanto à isso.


Por favor diga ao seu pai e mãe o quanto estou feliz por ouvir que eles vêem algum valor em meus livros sérios.


Com os meus melhores votos a você e a seus pais,


Atenciosamente de seu


C. S. Lewis


Clive Staples Lewis é um dos meus autores prediletos, e John Piper em seu espetacular sermão Lessons from an Inconsolable Soul - Learning from the Mind and Heart of C. S. Lewis explica maravilhosamente bem os motivos disso :)

[1] Segundo a nota explicativa no. 182, possivelmente se trata da edição da Puffin de O Sobrinho do Mago, lançada em 27 de Junho de 1963.

15 de novembro de 2014

As Crônicas de Gelo e Fogo

A série As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin é um inegável sucesso. Os livros são muitíssimo celebrados, especialmente entre os nerds/geeks, e a série de TV produzida pela HBO é considerada como umas das melhores dos últimos anos. George R. R. Martin é um escritor talentoso, e até mesmo chegou a ser chamado de "Tolkien americano". Embora eu ache que esta comparação seja um pouco exagerada ela no entanto mostra a atual importância do autor para o gênero da literatura fantástica.

Com todo o seu contexto medieval e fantástico, naturalmente que os livros teriam um apelo garantido para mim, e parti para a leitura da série há algum tempo atrás. De todos os volumes lançados até hoje, li o primeiro, Guerra dos Tronos [1], e após começar a ler o segundo, A Fúria dos Reis, parei.

Não nego a qualidade técnica da obra e nem o talento do escritor, mas durante sua leitura percebi que no final das contas a série simplesmente não faz o meu estilo. Ou em outras palavras: se existem alguns livros que me relembram o tipo de literatura que eu realmente aprecio, então a série As Crônicas de Gelo e Fogo é um exemplo disso.

Pessoalmente, não tenho problemas em aceitar elementos mais violentos em estórias, desde que sirvam e façam sentido na trama; já se tratando das cenas sensuais e de sexo, que também fazem a fama dos livros e especialmente da série de TV, sou da humilde opinião de que boas estórias podem ser feitas sem elas, e para mim a série exagera nisso. Estes motivos podem ter contribuído em minha decisão, mas existe outro que levou-me a perder o interesse por As Crônicas de Gelo e Fogo: como leitor, não consegui criar um "relacionamento" com a estória, em um nível mais pessoal.

Ao meu ver, o mundo fantástico criado por George R. R. Martin nesta série é um lugar extremamente cruel, violento e traiçoeiro, moralmente ambíguo, quase sem heroísmo, onde a vingança acaba sendo na prática o único instrumento de justiça que existe. Um lugar onde a honestidade e a integridade podem custar a cabeça, como acabou acontecendo com o personagem Ned Stark, o meu favorito e que morreu logo no primeiro livro.

(Ned Stark, pobre coitado, não sabia "jogar o jogo", como o anão Tyrion Lannister parece fazer tão bem.)

Para muitos, este mundo descrito em As Crônicas de Gelo e Fogo seria um retrato fiel do nosso mundo, algo que contaria como outra das qualidades da série, mas eu não penso assim. Aliás, acho que ele acaba sendo um mundo tão sombrio que chega ao ponto de ser irreal demais.

Porque a vida, mesmo neste mundo cheio de coisas ruins, é mais do que um jogo de poder ou uma guerra de paixões. Deus existe, e isso faz toda a diferença no mundo.

Concordo que o nosso mundo é um lugar violento e cruel, e não só isso, concordo com a Bíblia quando ela fala que na verdade o nosso mundo se encontra nas mãos do Maligno (1 Jo. 5:19). Entretanto, não acho que a realidade se limita apenas à este fato; ainda existem coisas como justiça, heroísmo, altruísmo, perdão e redenção. Deus atua com sua Graça Comum e Especial no mundo, e trabalha para a renovação futura de todas as coisas. Assim sendo, penso que a realidade também engloba coisas como renovação, esperança, e principalmente, Governo e Providência de Deus.

Gosto de leituras que de uma forma ou de outra me remetem à estes valores e princípios, e até onde li de As Crônicas de Gelo e Fogo não vi e senti nada disso. A leitura tornou-se cansativa, pois ela acabou sendo um trabalho que não me comunicava nada, e no final ela era motivada apenas pelo desejo de saber o que iria acontecer com os personagens principais, e nada mais do que isso. Os livros que eu realmente gosto representam para mim bem mais do que simples curiosidade em saber dos acontecimentos da trama.

No final, o Google resolveu o meu problema, quando eu o usei para saber sobre os acontecimentos dos outros livros, e dei-me por satisfeito com isso.

[1] Considerando o título original, "Game of Thrones", a tradução deveria ser "Jogo dos Tronos", algo que, aliás, faz mais sentido com a estória.

13 de novembro de 2014

Vivam as edições impressas!

Comprar os livros da série As Crônicas de Nárnia para a minha sobrinha fez com que eu parasse para pensar e relembrar os motivos de eu ainda gostar tanto das edições impressas: o fato de enxergar nelas o emprego daquele toque pessoal, artístico e íntimo que não vejo nas edições digitais.

Claro que à grosso modo as duas são apenas diferentes formas de distribuição; cada uma com o seu processo específico a fim de atender demandas específicas, mas em termos gerais, tratam-se apenas de jeitos de se distribuir um livro. O objeto final em si, tanto num quanto outro, terá a mesma estrutura interna, e tanto as edições impressas quanto as digitais valem-se de processos automáticos para a sua geração.

Entretanto, quando cito o toque pessoal, artístico e íntimo que vejo nas edições impressas não estou me referindo à sua geração, mas sim ao seu uso.

Porque quando você tem a edição impressa de um livro, você tem contato com um material fisicamente trabalhado e organizado de tal forma a lhe proporcionar um prazer visual e tátil (e para alguns até mesmo olfativo) através do emprego de coisas como o tipo e a cor da fonte escolhida para o texto, o tipo do papel, a arte visual (da capa ou interna) e a própria encadernação em si. Este é um tipo de experiência que a digitalização não é capaz de proporcionar.

Porque quando você está emprestando um livro impresso para alguém, você está tirando fisicamente um objeto que lhe é caro de sua coleção particular e entregando aos cuidados de outra pessoa, como num ato de confiança e coragem que pode levar à criação de um vínculo. Isso é muito mais difícil de se fazer e profundo do que simplesmente permitir o acesso à leitura de um conjunto de bytes guardados na nuvem computacional.

Porque quando, como foi no meu caso, você está presenteando uma coleção de livros impressos para a sua sobrinha querida, você investe parte do seu tempo para tentar construir uma espécie de representação física de um sentimento que você nutre por ela; não só pelo fato de você decidir compartilhar uma estória que lhe é pessoalmente cara, mas de você ter tido de se deslocar para várias livrarias para tentar encontrar aquelas edições específicas, de fazer ligações interurbanas para lojas, de parar para pensar e escrever dedicatórias de seu próprio punho para ela, de escolher um bonito papel de embrulho, tudo isso para no final ver o sorriso no rosto de uma criança ao receber em mãos um presente de um tio caladão e sem muito jeito para as coisas, mas que a ama muito.

Como isso poderia ser feito se eu ao invés estivesse "presenteando" as edições digitais?

Como feliz proprietário de um Kindle e de uma conta no comiXology, eu compro sim edições digitais de livros e HQ's; acho que eles apresentam algumas vantagens específicas muito boas e que vieram para ficar. E que bom que vieram. Contudo, não sou daqueles que só veem valor em novidades, e desprezam os "livros em papel" como "coisa velha e ultrapassada". Acho que as edições impressas tem qualidades inerentes que as tornam superiores em alguns pontos, e não, não acho que elas vão acabar.

10 de novembro de 2014

Lexicon

Em um post anterior, comentei como o escritor australiano Max Barry havia se tornado um dos meus autores prediletos, citando que eu ainda precisava ler Syrup, seu primeiro livro, e Lexicon, o seu trabalho mais recente.

Esta semana terminei a leitura de Lexicon quase que da mesma forma como li seus outros livros: cativado pela trama, não conseguia parar de lê-lo. Devo dizer entretanto que me decepcionei um pouco com este trabalho, no sentido de que enquanto eu havia considerado todas as suas outras estórias como sendo críticas inteligentes a algumas ideias e instituições da nossa sociedade corporativa, achei que Lexicon é apenas isso: uma boa ficção. Com toda certeza um ótimo thriller, mas sem aquele olhar crítico que havia me conquistado anteriormente.

Resta agora ler Syrup, e pelo que já pude ver, esta parece ser uma ficção nos mesmos moldes de seus outros livros, ou seja, com algo a dizer sobre algum aspecto da nossa vida moderna, o que sugere que será outro de seus trabalhos que irei gostar bastante. Mas ainda não desisti de Lexicon; não pretendo relê-lo em um futuro próximo, mas pretendo contudo ler alguns reviews sobre o livro, a fim de que, quem sabe, perceber se o autor estava analisando algo que passou batido por este leitor imaturo.

9 de novembro de 2014

Interestelar

[ texto com alguns spoilers ]

De forma geral, Interestelar, o mais novo filme de Christopher Nolan, não me decepcionou: uma estória linda e ao mesmo tempo bem fundamentada aliada à uma fotografia de tirar o fôlego resultando (em minha humilde opinião não profissional) em um dos melhores filmes de ficção científica já feitos.

Muito mais do que uma mensagem sobre o perigo de um apocalipse ambiental global, ao meu ver o filme é uma bonita defesa da capacidade humana de sonhar, de explorar, de desbravar novos horizontes, e aí sim sobre o perigo de perdermos esta capacidade. Não só isso, o filme retrata também como o amor que sentimos uns pelos outros deve ser nosso guia nesta jornada rumo à um futuro melhor, mais grandioso; sem ele como nosso guia, perdemos a nossa própria humanidade.

Como particularmente eu não acredito ser possível um futuro melhor e mais grandioso para a humanidade à parte de Deus, neste aspecto fica o meu ponto negativo sobre o filme: ele é mais uma estória baseada naquela velha ideia sci-fi de que vamos evoluir ao ponto de nos tornarmos quase que verdadeiros deuses, autores dos nossos próprios destinos no universo. Acho sempre bom ver estórias que reconhecem o fato de que precisamos de algo maior do que nós mesmos para nos desenvolvermos, mas à medida em que o tempo passa fico mais triste de perceber como o mundo não reconhece de que este Alguém que ele precisa é o Homem-Deus, Cristo Jesus, nosso próprio Criador.

O Ser Supremo que não enxerga apenas uma massa enorme de seres evolutivos, mas que criou e conhece cada um nós, intimamente, pelo nosso próprio nome, e que nos amou ao ponto de entrar no espaço-tempo e tornar-se um ser humano, como um de nós. Ninguém menos do que o próprio Senhor Deus demonstrou em Cristo Jesus esta outra bela mensagem do filme, de que o amor transcende o tempo e o espaço, justamente porque era disso que precisávamos para garantir nosso futuro melhor e mais grandioso, em toda a sua plenitude.

Em todo o caso, o filme é ótimo, e parabéns ao Christopher Nolan por mais este belo trabalho. Eis um homem que sabe usar com maestria o dom que Deus lhe deu.