29 de maio de 2014

Uma (breve) análise do mal na Crise Final de Grant Morrison

Eu me lembro muito bem de toda a discussão de alguns anos atrás ocorrida entre os fãs de quadrinhos sobre evento Crise Final da DC Comics. Naquela época, muitas pessoas reclamavam da falta de continuidade entre os títulos que deveriam levar ao início da saga (Countdown to Final Crisis, Death of New Gods, DC Universe: Last Will and Testament do Brad Meltzer), muitos outros afirmavam que a estória criada por Grant Morrison era simplesmente muito confusa, e alguns outros na realidade exaltavam o brilhantismo do autor por criar uma estória tão sofisticada, enquanto que ao mesmo tempo zombavam do grupo anterior por não entender a sua genialidade.

Particularmente, eu ainda acho que Crise Final foi uma verdadeira bagunça editorial, e também acho que ela definitivamente não é uma leitura simples e fácil, como esperado de uma grande saga de super-heróis; se você quer que o seu evento super-heroico seja um sucesso comercial, então você com certeza não vai querer vê-lo sendo considerado como "muito confuso" ou "inacessível". Entretanto, depois de passada toda a comoção, eu pude pensar um pouco melhor sobre a estória e agora sou capaz de apreciá-la um pouco mais. Ainda não posso afirmar que é uma das minhas sagas prediletas, mas pelo menos agora consigo reconhecer algumas coisas bem relevantes e instigantes nela, além de entender qual a sua proposta.

Eu continuo classificando Crise Final como uma "leitura difícil", mas agora porque eu a considero como um épico super-heroico hiper-místico muito bem elaborado, contendo muitos elementos religiosos bem interessantes, muitos deles inclusive sendo referências cristãs. Ao meu ver, Grant Morrison realmente fez um bom trabalho em responder a pergunta "o que acontece quando o mal vence no Universo DC?" ao mostrar o estado do mundo após a vitória de Darkside, e neste sentido Crise Final revela-se uma forte estória sobre como a perversão da bondade pode ser horrível e repulsiva.

Entre todas as coisas que poderiam ser ditas sobre os elementos religiosos desta saga, quero comentar (brevemente) neste post sobre uma edição desta série em 7 partes que me chamou a atenção: Crise Final #5. Na estória intitulada Rumo ao Esquecimento, podemos ver Darkside recuperando a totalidade do seu poder e gerando uma singularidade que ameaça toda a existência. Em meio ao caos cósmico, ele clama [1]:

[...] Nada que é vivo pode resistir a mim agora. Toda carne será o corpo de Darkseid. [...] Todos são um em Darkside!

Ser um com Darkside, como ele mesmo continua a dizer nesta edição, significa ser aniquilado, esmagado, quebrado, assassinado. Darkside quer sugar, cancelar, destruir, arrastar para um poço profundo, e é exatamente isto que o mal representa. É isto que C. S. Lewis destacou em seu livro Cartas de um diabo a seu aprendiz, conforme comentei no post anterior: unir-se ao mal significa morte; unir-se a Deus significa que enquanto indivíduos estamos finalmente livres para apreciar e experimentar aquilo que é mais importante para nós, aquilo que de fato é vital para nós: o próprio Deus. Esta é a vida perfeita.

Em Crise Final, mesmo com toda a resistência dos super-heróis ao redor do mundo, Darkside foi derrotado apenas após o retorno do Superman à Terra. Na minha opinião, esta é a forma de Grant Morrisson mostrar a importância do Superman para o Universo DC: ele é o maior super-herói, a figura central, aquele que finalmente derrota o mal e salva o mundo. Jesus Cristo significa exatamente isso para mim e para todos os santos em toda a história do mundo: Ele é Herói Supremo, o Filho do Homem que derrota o Diabo e a própria Morte, Aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas no Universo, e por meio de quem todas as coisas no Universo serão enfim renovadas e restauradas, para o louvor da Glória de Deus e, consequentemente, nossa alegria.

[1] Como não tenho as edições lançadas no Brasil, traduzi livremente da edição original Final Crisis #5, que possuo.

4 de maio de 2014

Intenções diferentes

Sempre acreditei que viver em unidade com Deus em Cristo não significa necessariamente perder as nossas identidades, mas sim que elas estão livres do pecado; no presente momento estamos livres do poder e da condenação do pecado, e no futuro estaremos livres até mesmo de sua presença. Deus quer que sejamos um com Ele, mas sem nos assimilar ou nos cancelar. Por outro lado, o Diabo, o inimigo de nossas almas (não de Deus, mas nosso inimigo!) tem intenções completamente diferentes: ele quer nos destruir, nos anular.

Jesus Cristo me salvou, Ele é o meu Senhor e Deus, eu estou unido com Ele, mas eu ainda sou "eu", e quando finalmente Ele voltar e renovar todas as coisas, eu ainda serei "eu". Alguém restaurado, mas ainda uma pessoa com uma identidade. E por quê? Porque a minha identidade é criação de Deus para a Sua Glória, e tudo o que Ele cria é bom. Por agora a minha identidade é corrompida pelo pecado, mas isso não vai durar para sempre. O problema é a corrupção da identidade, e não a identidade em si.

C. S. Lewis parecia concordar com o meu pensamento, como pode ser visto em um trecho do capítulo 8 do seu fantástico livro Cartas de um diabo a seu aprendiz, onde o personagem demônio Fitafuso, em uma das suas lições para o seu sobrinho demônio Vermebile, revela o quão completamente diferentes são as intenções de Deus e do Diabo no que se refere a nós:

[...] Temos de admitir que toda aquela conversa sobre Seu amor pelos homens e sobre o fato de que o serviço a Ele é perfeita liberdade não é, como acreditaríamos de bom grado, mera propaganda, mas uma terrível verdade. Ele realmente quer preencher o universo com inúmeras réplicas repugnantes de Si mesmo - criaturas cuja vida, em escala menor, será qualitativamente como a d'Ele, não porque Ele as absorveu, e sim porque a vontade deles está em espontânea harmonia com a d'Ele. Nós queremos apenas um gado que finalmente poderá ser transformado em alimento; Ele quer servos que finalmente poderão tornar-se filhos. Nós queremos sugá-los; Ele quer fortalecê-los. Somos vazios, e por isso queremos ser preenchidos; Ele está repleto e transborda. Nosso objetivo nessa guerra é um mundo no qual Nosso Pai nas Profundezas possa absorver todos os outros seres nele mesmo; o Inimigo quer um mundo repleto de seres unidos a Ele e ainda assim distintos. [...]